Jennifer Booher desenvolve projeto com cyanotypes em banners de grande formato

Jennifer Booher desenvolve uma série que aplica a técnica da cianotipia em banners de grande formato, transformando sacolas plásticas descartáveis em imagens fotográficas de grande impacto. Em termos práticos: ela imprime a sombra das sacolas sobre tecido pré-tratado com solução de cianótipo, expõe ao sol e, depois, re-aplica solução para uma segunda exposição que insere a silhueta humana nas peças. A descrição do processo, os desafios técnicos e as decisões estéticas estão documentados por Booher e resumidos aqui para quem busca entender, reproduzir ou aprofundar o tema.

Para quem procura a resposta objetiva já no início: Booher usa sacolas plásticas como objetos fotográficos, trabalha com tecido de algodão sateen preparado (Jacquard) e adapta a técnica tradicional de fotograma para escala de 5′ x 7′ (aproximadamente 1,52 x 2,13 m), expondo as montagens ao sol, lavando em água corrente e, em muitos casos, realizando uma segunda exposição para criar efeitos de dupla exposição com mãos ou pés. A fonte primária dessas informações é a própria documentação do projeto por Booher, disponível em Fonte.

Contexto e origem do projeto

O interesse de Jennifer Booher pela cianotipia começou com experimentos de pequenas impressões usando sacolas plásticas descartáveis como fotogramas. A série inicial, chamada “Extinction”, surgiu como uma tipologia irônica, inspirada por uma proibição de sacolas plásticas em sua cidade — a ideia era imaginar essas sacolas como uma espécie ameaçada.

A partir desses experimentos em papel, Booher evoluiu sua prática para um trabalho conceitual mais amplo intitulado “Ghosts of the Panthalassic Ocean”. O nome referencia a origem fósseis dos petroquímicos: a matéria-prima para plásticos deriva de organismos marinhos antigos, como o plâncton do oceano Panthalassic do Mesozoico. Com isso, Booher busca conectar a materialidade das sacolas plásticas ao tempo geológico e à crise ambiental contemporânea.

Materiais e suportes

Os materiais descritos por Booher concentram-se em três elementos principais: as sacolas plásticas descartáveis (como objetos fotográficos), o suporte de impressão (papel ou tecido) e as soluções preparadas de cianotipia. A transição do papel para o tecido foi motivada por limites práticos no manejo de impressões maiores e pela resistência mecânica do tecido ao processo de lavagem em grande escala.

Suporte: papel versus tecido

Nos primeiros anos, Booher usou papéis aquarelados de alto gramatura, como Fabriano e Arches 140 lb hot press, e também papéis preparados comercialmente. O processamento de papéis maiores se mostrava limitado pelo tamanho de seu tanque doméstico (a pia da cozinha), o que tornava desigual o enxágue e a fixação de peças acima de 11″ x 14″. Por esse motivo, para trabalhos de maior escala, ela adotou o cotton sateen preparado pela Jacquard, que oferece melhor maleabilidade, resistência à manipulação e facilita o processo de lavagem em volumes maiores.

Químicos e papéis/tecidos preparados

Booher relatou inicialmente usar papéis pré-tratados da Cyanotype Store, e soluções prontas da Photographer’s Formulary. Com o tempo, passou a preparar suas próprias papéis e testou diferentes soluções comerciais, destacando a praticidade do preparado da Jacquard para tecidos. Ela manteve consistência no uso de papéis e tecidos de qualidade para garantir a repetibilidade das tonalidades e a textura final das imagens.

Processo de produção: do fotograma à dupla exposição

O método de Booher preserva o princípio do fotograma clássico: dispor o objeto sobre o substrato sensibilizado, pressionar com uma placa acrílica transparente para evitar deslocamentos e expor à luz solar. Contudo, a escala ampliada e a introdução de uma segunda exposição com partes do corpo humano tornam o processo único e exigente.

Passo a passo resumido

  • Preparo do substrato: papel ou tecido são sensibilizados com a solução de cianótipo (comprada ou preparada).
  • Montagem do fotograma: sacola plástica é posicionada sobre o substrato sensível; cobertura com acrílico e fixação (pregos, alfinetes ou fita de forma a manter tudo plano).
  • Exposição ao sol: Booher posiciona o conjunto aproximadamente perpendicular ao sol para evitar sombras distorcidas; tempos variam com transparência da sacola e intensidade da luz (ela observa que cerca de 5 minutos costuma funcionar para a maioria das sacolas, com variações entre 1 e 10 minutos).
  • Enxágue e secagem: para papel, enxágue cuidadoso; para tecido em grande formato, uso de recipientes como coolers e caixas plásticas, agitação até a água clarear e suspensão até secagem.
  • Re-revestimento e segunda exposição: após secagem, o tecido pode ser novamente recoberto com solução e exposto com a mão ou o pé sobre o tecido para criar uma sobreposição humana.

Tempo de exposição e variabilidade

Booher destaca que o tempo de exposição é um “crap shoot” (jogo de azar) devido à variabilidade da espessura e opacidade das sacolas e às mudanças na força da luz solar. Em Maine, onde ela trabalha, as condições climáticas alteram a intensidade luminosa; assim, a regra prática que ela desenvolveu é: para a maioria das sacolas, cerca de 5 minutos; sacolas muito translúcidas podem exigir 1 minuto; muito opacas, até 10 minutos. Essa faixa orienta quem pretende reproduzir o processo sem equipamento de medição rigorosa.

Adaptação para banners de 5′ x 7′

A passagem para banners de grande formato requereu ajustes práticos e logísticos. Em vez de frisar limitações de tamanho do papel, Booher adotou o procedimento para tecido de 5′ x 7′ e descreveu como adaptou as técnicas de posicionamento, fixação e lavagem para manter a integridade da imagem em escala ampliada.

Fixação dos objetos no tecido

Para criar as composições em grande escala, Booher prendeu as sacolas diretamente no tecido sensível com alfinetes posicionados nas dobras das sacolas. Esse método é lento e doloroso — a artista relata frequentemente se machucar ao prender dezenas de alfinetes e também preocupação com manchas de sangue no tecido. Uma alternativa sugerida por uma amiga foi a fita de costura (fashion tape), usada em moda para prender roupas ao corpo. Booher pretende testar essa opção para permitir a montagem noturna e transporte em sacos opacos até o momento ideal de exposição.

Manuseio e exposição ao sol em grande escala

No ambiente externo, Booher esticou os banners sobre lonas e os prendeu para manter tudo plano durante a exposição. Trabalhar ao meio-dia, com o sol alto, ajuda a reduzir sombras distorcidas, mas introduz novos desafios: calor e suor podem respingar água sobre o tecido sensível, interrompendo localmente a reação e deixando manchas brancas. Por isso, o controle do ambiente e planejamento do dia de exposição são medidas práticas essenciais.

Desenvolvimento em grande escala

Ao contrário do papel, o tecido provou ser mais fácil de lavar em grandes dimensões: flexível, resistente e dobrável. Booher usa recipientes grandes e uma mangueira de jardim para enxaguar. O processo descrito envolve agitar o tecido até a água ficar amarelada, transferi-lo para água limpa repetidamente até que a água mantenha-se clara, e então secar sobre a lona antes de suspender para secagem completa. O acabamento das bordas e bainhas foi realizado por uma costureira experiente — no caso dela, a sogra, que fez as bainhas dos banners.

Técnica de dupla exposição e efeitos visuais

Uma das características mais marcantes do projeto de Booher é a experimentação com dupla exposição: primeiro a imagem das sacolas, depois uma segunda exposição com a mão ou o pé sobre o substrato já impresso. O efeito final é uma silhueta humana preenchida por imagens de plástico, um dispositivo visual que conecta corpo, materialidade e crítica ambiental.

Procedimento para a segunda exposição

Após a exposição inicial e secagem, Booher recobre o tecido com solução de cianótipo e posiciona sua mão ou pé diretamente sobre a superfície para uma nova exposição de cerca de 5 minutos. Ela observa preferir a mão esquerda por conveniência pessoal (permitindo atividades com a direita enquanto espera). A ordem das exposições (mão primeiro e sacolas depois, ou vice-versa) não parece afetar significativamente o resultado final, segundo suas observações experimentais.

Variante técnica e finalização

Para acelerar o processo de viragem de tonalidade, Booher às vezes faz um enxágue final em peróxido de hidrogênio. Isso intensifica e estabiliza o tom azul característico da cianotipia mais rapidamente do que depender apenas do clareamento por água e ar. Em clima frio (inverno em Maine) o projeto sofre paralisações, pois a exposição solar é insuficiente e o processamento ao ar livre inviável.

Desafios práticos e soluções propostas

O projeto evidencia vários desafios técnicos e logísticos: fixação dos objetos em escala, risco de contaminação durante o manuseio, controle do tempo de exposição e a necessidade de espaços adequados para lavar e secar. Booher compartilha soluções práticas desenvolvidas empiricamente, úteis para quem pretende replicar ou adaptar o método.

Fixação sem perfurações e montagem noturna

A alternativa da fita de costura (fashion tape) surge como solução para evitar perfurar o tecido com alfinetes e permitir montagem fora do sol. Com essa técnica, Booher poderia montar grandes composições durante a noite e enrolar os banners em sacos opacos à prova de luz até o momento da exposição, reduzindo dor física e acelerando o processo de layout.

Prevenção de manchas por suor e controlando variabilidade

Trabalhar em horários menos quentes ou com proteção sobre a área de exposição pode reduzir respingos de suor. Outra medida é preparar um plano de trabalho que minimize o tempo de permanência sobre o tecido sensível durante o período de exposição direta.

Lavagem em escala e infraestrutura

Para processar banners de 5′ x 7′, Booher usa cooler velho e caixas plásticas; para quem vai replicar o processo, recomenda-se antecipar recipientes grandes, mangueira com pressão moderada e espaço para secagem horizontal antes da suspensão vertical. Além disso, parcerias locais com ateliês que possuam tanques maiores ou tanques industriais podem acelerar a produção e melhorar a uniformidade do enxágue.

Decisões estéticas e leituras conceptuais

As escolhas materiais e as decisões de processo de Booher (sacolas plásticas, algodão sateen, dupla exposição com a silhueta humana) sustentam leituras conceituais claras: há uma crítica ambiental e uma metáfora temporal que conecta o presente (plásticos descartáveis) com tempos geológicos remotos (Panthalassic/Mesozoico). A sobreposição da forma humana preenchida por plástico visualmente transforma o corpo em recipiente das consequências materiais do consumo.

Tipologia e ironia

A série “Extinction” operava inicialmente como tipologia: documentar a diversidade formal das sacolas como se fossem espécimes de um museu da natureza. Essa abordagem aporta ironia, pois a proibição local das sacolas inspira a teatralização dessa “espécie” em risco. Posteriormente, ao ampliar a escala e incluir o corpo humano, Booher intensifica a dimensão emocional do trabalho.

Memória geológica e matéria-prima do plástico

Ao nomear o projeto com referência ao oceano Panthalassic e aos períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo, Booher conecta o plástico — derivado de hidrocarbonetos fósseis — à longa história biológica e geológica do planeta. Essa associação estimula o espectador a pensar o plástico não apenas como detrito presente, mas como elemento com origem profunda na história da vida e que agora persiste como marca no tecido geológico atual.

Documentação visual e processo experimental

Booher registrou seu processo por meio de fotografias que mostram estúdio improvisado, montagem das peças, etapas de exposição e resultados intermediários e finais. Exemplos documentados incluem impressões em 8.5″ x 11″ em cotton sateen, estudos em 11″ x 14″ e as impressões de 5′ x 7′. A documentação visual ajuda a orientar reproduções técnicas e a comunicar as decisões estéticas adotadas durante a evolução do projeto.

Limitações temporais e sazonais

O trabalho depende diretamente de luz solar adequada; Booher relata que, durante o inverno em Maine, o sol fica baixo e as temperaturas inviabilizam o processo ao ar livre. Assim, o calendário de produção é sazonal, com experimentos e exposições concentrados na primavera e verão, quando a luz é mais favorável e as condições para lavar e secar as peças são viáveis.

Possíveis variações e experimentos futuros (segundo a própria artista)

Booher planeja testar a fita de costura para fixação, experimentar diferentes tempos de re-exposição para controlar melhor o contraste entre a silhueta humana e as imagens das sacolas, e aplicar a técnica de dupla exposição em escala ainda maior, de modo que a silhueta humana seja preenchida por padrões mais legíveis das sacolas e, potencialmente, de outros resíduos plásticos.

Além disso, ela considera variar o uso de soluções comerciais (citou intenção de experimentar a solução Jacquard para tecidos) e seguir ajustando o processo de lavagem para otimizar uniformidade cromática nas grandes peças.

Implicações para artistas e estúdios caseiros

O relato de Booher oferece um roteiro prático para artistas que queiram trabalhar com cianotipia em grande escala sem acesso a infraestrutura industrial. As principais recomendações implícitas no seu processo são: escolher materiais sensíveis ao manuseio, testar a solução e o tempo de exposição em amostras menores, planejar a logística de lavagem e secagem e considerar a ergonomia e a segurança na montagem (evitar perfurações indesejadas e contaminações).

Recomendações práticas resumidas

  • Fazer testes em pequena escala para calibrar tempos de exposição conforme opacidade dos objetos e intensidade solar.
  • Usar tecidos preparados comercialmente (por exemplo, cotton sateen da Jacquard) para reduzir variabilidade inicial.
  • Planejar recipientes grandes para enxágue e um espaço amplo e protegido para secagem horizontal e vertical.
  • Considerar alternativas à fixação com alfinetes, como a fita de costura, para montagem noturna e transporte.
  • Documentar cada etapa com imagens para informar ajustes posteriores.

Exemplos de peças e fases do projeto

O repertório documentado por Booher inclui impressões em papel e tecido: trabalhos de 9″ x 12″ montados como pares em papel aquarelado; impressões em 11″ x 14″; e banners de 5′ x 7′ intitulados “Triassic”, “Jurassic” e “Cretaceous”. Ela também produziu experimentos de dupla exposição em 8.5″ x 11″ em cotton sateen que mostram a progressão técnica antes da produção das grandes peças.

Como essa documentação pode servir pesquisadores e curadores

A descrição pormenorizada do processo fornece informações valiosas para conservadores, curadores e pesquisadores interessados em trabalhos em cianotipia contemporânea. Sabendo que as peças foram produzidas em tecido de algodão tratado, lavadas com água e, em alguns casos, finalizadas com peróxido de hidrogênio, profissionais de conservação podem começar a mapear protocolos de manejo, conservação preventiva e condições de exposição adequada para preservar as imagens em azul ferroso típicas da cianotipia.

Aspectos éticos e de mensagem

O trabalho traz uma mensagem ambiental que não se limita ao visual: ao transformar sacolas plásticas em imagens poéticas e ao integrar a silhueta humana, Booher propõe uma responsabilização simbólica do corpo coletivo frente ao consumo e descarte de plásticos. A camada conceitual — relacionar plásticos a origens fósseis e a extinção de espécies — amplia o alcance do trabalho para além do estético, convocando reflexões sobre consumo, duração material e legado ecológico.

Próximos passos do projeto (informação disponível)

Segundo a documentação, Booher pretende continuar os experimentos na primavera, testando tempos de exposição alternativos para tornar as sacolas mais visíveis dentro da silhueta humana e aplicando a técnica de dupla exposição em larga escala, de modo a obter uma figura humana preenchida por imagens de plástico mais legíveis. Testes com fita de costura para facilitar montagem e transporte noturno também estão planejados.

Conclusão prática e acionável

Quem deseja replicar a abordagem de Booher deve começar por: 1) realizar testes em pequeno formato para calibrar tempos de exposição; 2) optar por tecido preparado para facilitar a limpeza e reduzir problemas com o enxágue; 3) prever recipientes grandes para lavagem; 4) experimentar alternativas à fixação com alfinetes; e 5) documentar cada mudança. As soluções adotadas por Booher — uso de cotton sateen, repetição do ciclo de exposição e enxágue, e a aplicação de uma segunda exposição para incorporar a figura humana — constituem um roteiro técnico confiável para trabalhos de cianotipia em grande escala, conforme descrito na documentação original.

Para detalhes adicionais sobre as etapas, materiais e imagens que ilustram esse processo, consulte a documentação primária de Booher disponibilizada na Fonte.

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