Em poucas palavras: a cianotipia é um processo fotográfico histórico que produz imagens em tons de azul (Prussian blue) a partir de dois sais de ferro sensíveis à luz. O método combina uma solução de ferric ammonium citrate com uma solução de potassium ferricyanide; após exposição à luz actínica, forma-se o pigmento azul. Este artigo explica passo a passo a técnica, da preparação das soluções ao acabamento, incluindo variações criativas e cuidados de segurança.
Quem pretende começar hoje terá instruções práticas, medidas e rotinas testadas descritas por Sarah Van Keuren em “A Non-Silver Manual: Cyanotype” — referência base deste guia. A primeira menção a essa fonte está incorporada aqui para consulta: Fonte. O texto a seguir detalha histórico, química, materiais, preparação, exposição, revelação, alternativas de branqueamento, tonalização e possibilidades artísticas, permitindo replicação e experimentação controlada.
Breve história e caráter artístico da cianotipia
A cianotipia foi nomeada por Sir John Herschel em 1842 (cyan = azul, type = impressão) e nasceu como método de cópia de anotações astronômicas. Anna Atkins, aprendendo o processo, produziu em 1843 um volume de fotogramas de algas britânicas que hoje é reconhecido como o primeiro livro fotográfico. Considerada no século XIX um meio vulgar de reprodução, a técnica passou a ser valorizada pelas qualidades estéticas de seu azul e pela durabilidade das impressões.
Princípio químico essencial
A reação básica da cianotipia depende da redução do sal de ferro férrico (ferric ammonium citrate) a ferroso pela ação da luz actínica. Em contato com o segundo sal, potassium ferricyanide, forma-se o pigmento conhecido como Prussian blue (ferroferrocianeto), responsável pelo tom azul intenso das imagens. Em resumo: luz + Part A (férrico) → ferroso; ferroso + Part B (ferricianeto) → azul.
Componentes e preparação das soluções
O processo utiliza duas soluções separadas (chamadas aqui de Part A e Part B). Armazenadas separadamente, preservam-se por anos; após combinadas, a solução completa é utilizável por poucas horas apenas.
Part A: ferric ammonium citrate
Medida recomendada: 50 gramas de ferric ammonium citrate dissolvidos em 8 onças (236 ml) de água destilada. O pó tem coloração verde/âmbar e é sensível à umidade; deve ser guardado em frasco opaco, em local escuro e com tampa bem vedada.
Observação prática: com o tempo, pode aparecer um crescimento de mofo superficial na solução A. Em início de formação, isso não altera significativamente a capacidade de imprimir; para remoção, é possível filtrar ou decantar a solução. A adição de algumas gotas de formaldeído (37%) evita o mofo, mas trata-se de substância tóxica — em estúdio doméstico, a prática mais segura é coar a solução quando necessário.
Part B: potassium ferricyanide
Medida recomendada: 35 gramas de potassium ferricyanide dissolvidos em 8 onças (236 ml) de água destilada. Este composto é caustico e tem riscos; nunca combinar com ácidos, pois há risco de liberação de gases contendo cianeto. Em manuseio cotidiano de cianotipia a liberação de gás tóxico durante a exposição é considerada improvável por muitos especialistas, mas recomenda-se precaução: ao abrir uma moldura após exposição, manter o rosto afastado e ventilar o local.
Combinação e armazenamento
Combine Part A e Part B em quantidades iguais somente quando for aplicar a mistura na superfície a ser sensibilizada. A solução combinada permanece ativa por no máximo 12 horas; use quantidade mínima necessária para evitar desperdício. Armazene as partes A e B em frascos opacos, etiquetados com data e letra (A ou B) e mantenha-os longe da luz.
Superfícies que aceitam cianotipia
A cianotipia responde melhor em superfícies orgânicas: algodão, seda, linho, papel de algodão (ex.: BFK Rives), papel mulberry, madeira não tratada. Materiais sintéticos costumam impedir a fixação adequada ou produzir resultados fracos. A textura e o tamanho das fibras influenciam contraste e nitidez: papéis macios e não selados absorvem mais solução e geram imagem tonais ricas; papéis duros e menos absorventes produzem detalhes mais nítidos.
Preparação do papel ou tecido para coating
Antes de aplicar a emulsão, marcar levemente os cantos da área de impressão com lápis HB para garantir alinhamento e registro. Evitar tocar a área sensível, especialmente em papéis muito lisos, já que gorduras digitais podem repelir a solução.
Técnica para aplicação: combinar a solução A e B na proporção 1:1 no mínimo necessário (por exemplo, 5 ml + 5 ml para cobrir quatro folhas 8″x10″ em papel moderadamente absorvente). Usar um pincel limpo e seco (sem partes metálicas) e aplicar de modo uniforme. Deixar uma margem sem emulsão para evitar contaminação do verso e facilitar anotações e assinaturas.
Secagem e manuseio antes da exposição
Secar o papel em escuridade relativa, com circulação de ar. Após cerca de 10 minutos, é útil passar um secador de cabelos (modo frio ou morno) dos dois lados para acelerar a secagem. A superfície está pronta quando o papel fica uniforme, sem sensação de frio ao toque e flexível sem enrugar. Papel úmido pode causar manchas ou perda de contraste.
Exposição: fontes de luz e estratégia
A cianotipia exige luz actínica (ultravioleta/azul) para sensibilizar a camada. A fonte mais eficiente e prática é o sol. Em geral, expor entre 10h e 15h produz resultados consistentes, posicionando o contato de modo que os raios incidam perpendicularmente ao plano do contato frame quando possível.
Fontes artificiais: lâmpadas blacklight (ultravioleta) ou lâmpadas de platemaker (xenon/mercúrio) também funcionam, mas podem exigir ajustes de tempo e cuidados com calor e ozônio. Lâmpadas incandescentes/amarelas (photofloods comuns) não são eficientes por emitirem pouco comprimento de onda actínico.
Método de exposição por inspeção: prender um lado do negativo ao papel com fitas pequenas para que o negativo possa ser levantado e verificada a progressão da solarização e do desenvolvimento sem perder registro. Um cyanotipo totalmente exposto parece inicialmente solarizado e, para melhores azuis, deve-se permitir a impressão até que as áreas mais claras do negativo apresentem sinais de solarização (tons prateados/verdeados) antes de lavar.
Desenvolvimento e lavagem
Para revelar, submergir o papel em bandeja com água fria, movimentando para evitar bolhas. Fazer ciclos de levantar/virar o papel por alguns minutos para eliminar químicos solúveis. Passar para uma bandeja de lavagem maior com fluxo constante (sifão) se possível. A duração da lavagem depende da absorção do papel: papéis pesados e porosos (ex.: BFK Rives) exigem mais tempo; papéis finos e duros exigem menos.
Um indicador prático: quando a água que escorre do papel fica clara em vez de amarelada, a lavagem foi suficiente. Evitar lavagem excessiva que possa clarear as áreas mais finas da imagem.
Branqueamento, tonificação e efeitos de cor
É comum trabalhar com branqueamentos controlados para intensificar o azul ou recuperar detalhes. Métodos descritos por Sarah Van Keuren incluem:
- Bleach com solução diluída de hipoclorito de sódio (ex.: 1 parte de alvejante doméstico 5% para 32 partes de água). Requer lavagem cuidadosa pós-bleach devido ao dano potencial às fibras.
Alternativas menos agressivas citadas: peróxido de hidrogênio (hydrogen peroxide) que aprofunda o azul sem perder detalhes de destaque e produz menos danos e fumos, além de soda ash (carbonato de sódio) utilizada como branqueador mais seguro e efetivo em algumas práticas.
Para tonificação e recoloração após branqueamento, usar tannic acid (ácido tânico) dissolvido em água para trazer tons rosados/acenho-marrom nas altas luzes, seguido por banho de carbonato de sódio conforme a técnica descrita. Chá forte também pode fornecer tonalização quente, embora mais imprevisível e passível de manchar áreas brancas.
Trabalhos localizados e manipulação seletiva
Banchamentos e tonificações podem ser aplicados de forma localizada: pincelando alvejante em áreas específicas, trabalhando com o papel úmido para obter transições suaves, ou usando movimentos controlados para evitar marcas de sobreposição. A técnica exige testes prévios para prever o comportamento do papel e do pigmento.
Desconstrução experimental da cianotipia
Um experimento particularmente revelador: aplicar apenas a Part A (ferric ammonium citrate) ao papel, expor ao sol através do negativo e, em vez de lavar, pintar seletivamente Part B (potassium ferricyanide) sobre a imagem quase invisível. A ação imediata produz azul onde o B toca, criando um processo de pintura reativa que permite controle do aparecimento do azul e efeitos de transição com a água.
Resultados desse método tendem a ter azuis menos vibrantes do que quando A e B são misturadas antes da aplicação, mas oferecem possibilidades artísticas únicas de intervenção direta e seleção de áreas que receberão o pigmento final.
Boas práticas, notas de processo e registro
Manter anotações detalhadas junto às provas é prática essencial. Sarah Van Keuren recomenda anotar tipo de papel, se foi pré-encolhido, título do negativo, data, e parâmetros do processo (ex.: “cyanotype in sun 5 minutes around noon 6/21/08”). Essas informações permitem repetir ou ajustar a técnica com base em resultados prévios.
Ao aplicar a solução, deixar bordas sem emulsão facilita manipulação e assinatura sem contaminar o verso. Em aulas, não aplicar emulsão até a borda para evitar sujeira nos suportes de secagem.
Segurança e descarte
Os dois componentes apresentam perfis diferentes de risco: o ferric ammonium citrate tem toxicidade relativamente baixa (já utilizado historicamente como suplemento de ferro), enquanto o potassium ferricyanide é caustico e requer cuidado. Evitar mistura com ácidos; nunca trabalhar perto de alimentos; usar luvas quando manipular pós e soluções concentradas; ventilar o local ao abrir bandejas após exposição. Resíduos químicos devem ser descartados conforme normas locais para produtos químicos, evitando despejo indiscriminado em redes de esgoto.
Aplicações artísticas e educativas
A cianotipia tem usos diversos: reproduções artísticas, fotogramas (objetos diretamente em contato com papel sensibilizado), impressões de negativos por contato, transferências para tecido e experimentos com dupla exposição. Historicamente usada para difundir imagens e reproduções, hoje é praticada como técnica experimental e pedagógica, muito apreciada por sua simplicidade, estética e acessibilidade.
Exemplos práticos e receitas rápidas
Receita básica (por sessão):
- Part A: 50 g ferric ammonium citrate em 236 ml água destilada
Part B: 35 g potassium ferricyanide em 236 ml água destilada
Misturar A e B em partes iguais no momento do uso; usar a solução completa dentro de 12 horas.
Rendimento aproximado: 5 ml de cada parte (10 ml solução completa) sensibiliza aproximadamente quatro áreas 8″ x 10″ em papel de absorção média. Ajustar conforme absorvência do suporte.
Limitações e variáveis comuns
Variáveis que afetam o resultado: tipo de papel/tecido, absorvência, espessura da camada aplicada, intensidade de luz actínica, densidade do negativo, umidade durante secagem, e lavagem. O controle cuidadoso de cada variável e o registro de testes ajudam a alcançar reproduzibilidade.
Considerações finais e próximos passos para prática
Compreender e praticar a cianotipia exige atenção à química, paciência nos testes e disciplina nas anotações. A técnica oferece grande espaço para experimentação, desde abordagens históricas e reprodutivas até intervenções criativas como pintura reativa com Part B ou tonificação por tannic acid. Para aprofundamento técnico e histórico, a obra e o capítulo consultados fornecem base prática e receitas detalhadas.
Leitura recomendada para quem quer avançar, conforme citado no início deste guia: consulte o material original disponível na Fonte para ver o capítulo “Cyanotype” de Sarah Van Keuren, que embasa as instruções e as medidas descritas aqui.
Pronto para começar: reúna as partes A e B, escolha um papel orgânico, faça amostras com notas claras, exponha ao sol e experimente branqueamentos ou tonificações para descobrir a paleta de azuis e marrons que a cianotipia pode oferecer.






